Friday, November 17, 2006

Barrosão não é Português

Professor da UTAD identifica dialecto em Montalegre e Boticas *

Nas aldeias serranas da região de Barroso, os agricultores e pastores mais velhos intercalam o dialecto padrão, o português, com um falar próprio cuja origem remonta, em parte, à forma originária do português.


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Encravada entre Trás-os-Montes, o Minho e a Galiza, a região de Barroso é uma ilha cultural e geográfica, com "pobos" (aldeias) de granito espalhados por "barrosas" (encostas das serras), lameiros regados por fios de água cristalina, tradições comunitárias que escaparam à erosão do tempo, mistérios do corpo e da mente e cultos sagrados da natureza das águas e das fontes. Uma terra assim merecia uma língua própria.
Até agora, julgava-se que não a tinha. Na verdade não tem, mas um paciente trabalho de investigação levado a cabo nos últimos sete anos por Rui Guimarães, um professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), conduziu à descoberta de um falar próprio do Barroso, um subdialecto transmontano e alto-minhoto, arquétipo da forma originária do português.
O léxico do falar barrosão, segundo Rui Guimarães, possui 37 por cento de palavras do princípio do português moderno (finais do século XVIII e inícios do século XIX), 37 por cento de barrosismos (termos exclusivos do Barroso sem datação), 15 por cento do português clássico (séculos XVI e XVII) e 11 por cento de antiga linguagem que engloba o português antigo e médio (séculos XIII, XIV e XV). Em termos de partilha lexical, 43 por cento dos termos usados são comuns ao galego, 32 por cento são barrosismos, 15 por cento são comuns ao contexto transmontano, seis por cento ao Minho e quatro ao contexto fronteiriço próximo. "Daqui se conclui facilmente que o falar barrosão apresenta um personalidade linguística própria", sublinha Rui Guimarães.
Na sua esmagadora maioria, os habitantes mais novos, sobretudo os da terceira geração (até aos 25 anos), praticamente já não usam o falar barrosão, "devido à escolaridade que impõe a norma do português do dialecto padrão", esclarece Rui Guimarães. O falar local assenta mais na primeira geração, em sujeitos maiores de 65 anos, com um estatuto sociocultural que corresponde ao do agricultor e pastor analfabeto ou que sabe ler e escrever mas não tem a quarta classe.
O falar barrosão é mais de uso familiar e informal e é utilizado em paralelo com o português do dialecto padrão, que domina. Os falantes do dialecto barrosão usam ainda as vogais médias do galego-português medieval. Essas vogais faziam parte do sistema vocálico átono e no falar barrosão fazem parte do sistema átono e tónico. É o caso do "e", que se situa entre "é" e "ê", como na palavra "gueicha", pronunciada quase "guéicha", e que significa vitela, novilha, termo comum à Galiza e datado do princípio do português moderno. Outro exemplo é o da vogal "o", situada em certos termos entre "o" e "ô", como na palavra "agora", que é pronunciada quase "agôra".
As restantes vogais são ligeiramente mais abertas do que no dialecto padrão. Neste existe um tipo de "u", no falar barrosão existem dois: um tónico e outro átono, como nas palavras "cunca", que significa malga grande, tigela grande, e "cupeira", barrosismo utilizado para designar "apetrecho que serve para pendurar a candeia e a garrafa de vinho da pessoa que prepara o forno para cozer o pão no forno do povo".
Em relação à geografia do falar barrosão, Rui Guimarães encontrou uma diferença entre o Alto e o Baixo-Barroso. O dialecto é mais falado no Alto-Barroso, no concelho de Montalegre, na zona do rio e de entre-rios (Cávado e Rabagão), principalmente nas aldeias de Cambezes e Contim. Também foram encontrados registos do falar barrosão em Alturas de Barroso, que já pertence ao concelho de Boticas. Nos mapas linguísticos de José Leite Vasconcelos e Paiva Boléo, o único falar referenciado na região de Barroso era precisamente o de Boticas.
O falar barrosão não varia apenas no espaço, varia também em altitude. "As aldeias mais altas são mais isoladas e mantêm, pelo seu conservantismo [e isolamento], um registo mais puro do falar barrosão", especifica Rui Guimarães.
Este professor invoca o espírito da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos, proclamada em 6 de Junho de 1996 em Barcelona, para defender a necessidade de "restaurar" o falar barrosão, em nome do reforço da identidade nacional. Ao contrário do mirandês, que é, segundo Lindley Cintra e Fernandez Rei (Galiza), um dialecto leonês em território português, ou, para outros autores, uma língua que assenta numa variedade leonesa, "o falar barrosão é português até ao tutano, radica numa variedade do português antigo", defende Rui Guimarães. A partir dele, é possível "reconstituir um pouco do nosso português antigo ou medieval" acrescenta.
O trabalho de investigação de Rui Guimarães, com mais de 900 páginas, inclui um dicionário do falar barrosão e vai ser editado brevemente em livro

Topónimo Barroso Pode Ter Origem Basca

Qual é a origem do topónimo Barroso? O assunto não é pacífico. Aguns autores defendem que o nome remonta a uma antiguidade pré-romana, celta ou autóctone. Outros sustentam que ele deriva da palavra "barro", apesar de a geologia da região ser marcadamente granítica.
Rui Guimarães acredita que a palavra "Barroso", à luz da onomástica, pode derivar do basco, do topónimo "Vale de Barrueso", no País Basco. Esta tese baseia-se no facto de ter havido um repovoamento basco que se fez sentir do norte da Península Ibérica até Salamanca e Ávila, estudo também á luz da onomástica por António Llorente Maldonado, catedrático da Universidade de Salamanca.
"Barroso" poderá também ter origem na cor da lã natural, não tingida, matizada com manchas ou barras que caracterizava os habitantes das encostas das serras, denominados "barrosos", com gosto especial em habitar as encostas das serras ou "barrosas".

10 Exemplos de Barrosismos

Abretónica - Betónica bastarda e melissa bastarda. Planta medicinal para a ansiedade, insónia e alterações menstruais.
Andubinho! - Chamamento pelo moço que transporta o vinho durante os trabalhos agrícolas. Também se usa "afoutar os homes!"
Barbanzum - Malandro, sacana
Chismiz - Bocadinho de comida, migalho.
Dequitar - Provocar o aborto
Grossabagalhoça - Murmúrio, "zum-zum"
Parva - Refeição ligeira entre o pequeno almoço e o almoço
Repolhaça - Rapariga atraente
Samalagantas - Bicho do monte
Zargolina - Embriaguês

*(in Jornal Público de 07 de Setembro de 2001, por Pedro Garcias)

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